No meio da madrugada, quando a maioria das pessoas estão dormindo, eu acordei, mas não de forma literal. Viajei anos luz da dimensão terraquea para poder ouvir o silêncio. Consigo me enxergar dormindo em um sono profundo e incomodo, mas valeu a pena, porque vim ouvir o meu silêncio. Aquele barulho que não incomoda ninguém durante o dia, começa a fazer sentido, e ouvi-lo com todas as vibrações me faz sentir viva. Ouvir o silêncio é estar disposta a desenterrar camadas e mais camadas de fantasmas noturnos. O funcionamento da geladeira da cozinha orquestrava infinitas sinapses sonoras, que inicialmente me assustou. O som do vento batendo na janela, nunca foi tão acentuado, parece até que a força da natureza, viva, lúcida e limpa, quer me chamar. A cortina que por avarias da porta voava e voltava levemente pelo ambiente, transmitia um cheirinho agradável de amaciante. O ronco do gato nunca foi tão alto. Os passos podiam ser ouvidos por todo o campo terrestre, ninguém estava ali, só eu, que não estava dormindo. Ouvi então um barulho límpido de passos calmos de pés descalços. Me escondi, nunca ninguém havia me visto ali. Olhei no cantinho e percebi que tinha outra pessoa, quem é esse, eu pensei, com muita dor no coração de não querer compartilhar a minha dimensão. Que decepção! Fiquei ali esperando ele ir embora, olhei pro outro lado e de repente aquela som não existia mais. Confesso que fiquei triste, que desilusão. Quando olho pra trás, ali está ele. Um homem de baixa estatura, moreno, de ombros largos, sorriso aberto, lábios grossos e olhos bem puxados. Quem é você, eu gritei sem querer. Ele rapidamente me respondeu: Eu moro aqui, não tenho nome, acordei porque você não me deixou dormir.
MORAL DA HISTÓRIA
Você nunca está sozinha (o).
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