quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

A culpa não é minha

A culpa não é minha 

Hanna K. 




Saindo da faculdade
O telefone toca 
É a minha amiga, a Trindade 
- Alô amiga, o que aconteceu?
- Não é nada não, apenas estava com saudades. 

O telefone cai no chão 
- Alô! Alô! 
Alguém me encostou a mão
Tampou os meus olhos 
Eu disse:
- Pode levar o celular, não tem problema não 
Ele me deu um soco na cara 
E me derrubou no chão 

Desmaiei, não vi mais nada 
Acordei no meu da lama 
Ensanguentada e com a perna quebrada 
Não conseguia nem gritar de tão traumatizada 

Minha vagina estava machucada 
Meus seios foram cortados 
Meu cabelo arrancado 
Estou nua, no meio da chuva 
Certamente, fui estuprada 

Tinha esperma no meu corpo 
Não conseguia falar 
Mas não parava de chorar 
Quase morri naquele frio 
Passei a noite no lixão 
Pois não conseguia levantar 

Desmaiei de fraqueza 
E acordei com gritos 
Alguém socorre essa menina 
Era uma voz feminina 
Ainda bem, eu pensei 

- Como você chama, minha filha?
Não conseguia falar 
Minhas cordas vocais foram esmagadas 
Por ter sido brutalmente espancada 

Fui levada ao hospital 
Me disseram:
- Devia ter evitado!
Outros ainda falaram:
- Ela mereceu ser estuprada!
Afinal, pra que andar de calça jeans e regata?

Como se não bastasse
Engravidei do estuprador 
O médico chegou de mansinho e me falou:
- A PEC 181 foi aprovada. 
Se você abortar, vai acabar sendo condenada 
Não tive palavras
Quebrei o vidro angustiada 
E me joguei do 13° andar do hospital da Santa Casa.