A culpa não é minha
Hanna K.
Saindo da faculdade
O telefone toca
É a minha amiga, a Trindade
- Alô amiga, o que aconteceu?
- Não é nada não, apenas estava com saudades.
O telefone cai no chão
- Alô! Alô!
Alguém me encostou a mão
Tampou os meus olhos
Eu disse:
- Pode levar o celular, não tem problema não
Ele me deu um soco na cara
E me derrubou no chão
Desmaiei, não vi mais nada
Acordei no meu da lama
Ensanguentada e com a perna quebrada
Não conseguia nem gritar de tão traumatizada
Minha vagina estava machucada
Meus seios foram cortados
Meu cabelo arrancado
Estou nua, no meio da chuva
Certamente, fui estuprada
Tinha esperma no meu corpo
Não conseguia falar
Mas não parava de chorar
Quase morri naquele frio
Passei a noite no lixão
Pois não conseguia levantar
Desmaiei de fraqueza
E acordei com gritos
Alguém socorre essa menina
Era uma voz feminina
Ainda bem, eu pensei
- Como você chama, minha filha?
Não conseguia falar
Minhas cordas vocais foram esmagadas
Por ter sido brutalmente espancada
Fui levada ao hospital
Me disseram:
- Devia ter evitado!
Outros ainda falaram:
- Ela mereceu ser estuprada!
Afinal, pra que andar de calça jeans e regata?
Como se não bastasse
Engravidei do estuprador
O médico chegou de mansinho e me falou:
- A PEC 181 foi aprovada.
Se você abortar, vai acabar sendo condenada
Não tive palavras
Quebrei o vidro angustiada
E me joguei do 13° andar do hospital da Santa Casa.
