sexta-feira, 14 de julho de 2017

SOBRE A VIDA

Autora: Hanna Kitamura 

 

Eu vivo chorando pelo banheiro, esmurrado, sujo, indelicado, mas que me isola e me conforta. Eu vivo pensando em parar e acabar com tudo, mas tudo que posso sentir não está muito sobre o meu controle, porque cheguei a um ponto onde meu corpo não obedece as mais banais operações mentais. Não estou literalmente falando, mas é assim como eu me sinto, sem direção, onde eu vou não tem caminho, e onde estou não tem saída. O buraco que eu entrei é muito fundo e a cada dia ele, o buraco, me suga mais pra baixo ainda. Eu tento gravar as humilhações dentro da minha esquecida cabeça, mas me pareço mais com um animal abandonado, que ao ver o maldito dono chora por carinho e atenção. Me sinto assim, não era pra sentir, mas me sinto. Me sinto como um montanha sendo destruída por bombas enormes, daquelas que deixa qualquer um pedacinhos. Me sinto uma montanha, porque apesar das mais congestionadas diversidades, consigo disfarçar tamanha dor e tristeza. Me sinto uma montanha porque de perto, bem de perto, os buracos são inegáveis, mas de longe não dá nem pra perceber. Quem diria, justa ela, aparentemente tão forte? Diz a Dona Maria. Eu vivo pensando, como, porque e de que forma eu fui parar aqui, eu já sabia que ia dar nisso, mas é como se diz, a gente escolhe e as consequências vem em uma embalagem inicialmente bem bonita que vai se esvaindo aos pouquinhos. Estou aqui, e é impossível negar tamanha, profunda e irreversível lamentação dentro do meu ser. Fecho os olhos bem devagarinho e lá vem ela, a fria e maldosa voz dentro da minha cabeça, aquele grito, aquela ameaça, aquele soco. Eu travei, mas eu queria pedir socorro. Em um instante, pensava que era só um pesadelo qualquer, uma tristeza, uma inundação do meu ser. 

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